• paulo vitor mineiro costa

Eu olhei pro futuro e vi um túnel.


Rever um filme é uma experiência incômoda e complexa. Incômoda pela possibilidade da revisão das suas memórias e uma possível decepção com algo que gostava muito. E complexa pela chance de se aprofundar em novos conhecimentos, signos e detalhes que passaram despercebidos no primeiro contato. Independente disso, essa experiência é sempre uma revisão de si mesmo, do seu ponto de vista, de como você assistiu e experienciou o filme e de como vai assisti-lo agora, e talvez esse seja o maior incômodo.


Recentemente tive a oportunidade de rever “As vantagens de ser Invisível” no ciclo de filmes sobre adolescência do Cineclube da HFA. E foi maravilhoso; ainda incômodo, mas maravilhoso. A parte desconfortável vem da primeira vez que vi o filme, quando eu estava escrevendo um artigo sobre teen movies para a revista Hatari! de cinema, estava imerso não só no gênero mas na minha própria adolescência, e tudo que sobrou em mim ao final do filme foi raiva e incompletude


No filme acompanhamos Charlie (Logan Lerman), um adolescente prestes a experienciar seu primeiro ano no ensino médio após o suicídio de seu melhor amigo. Acompanhamos todas as novas experiências de Charlie, sua primeira festa, sua paixão de ensino médio, sua primeira namorada, o primeiro baile, sua primeira experiência com drogas, e acima de tudo sua relação com seus novos amigos: Sam (Emma Watson), Patrick (Ezra Miller) e Mary Elizabeth (Mae Whitman). O filme alcançava todas as notas esperadas de um teen movie, tinha todos os personagens, cenas e arquétipos que conceituam o gênero, mas o terço final do filme era horrível.


Nesse terço final nós acompanhamos o encontro de Charlie com amigos para celebrar as festividades do final do ano, depois disso Charlie e Sam têm uma conversa no quarto da personagem, enquanto arrumam as suas coisas para a sua partida.


Após conversarem sobre as mudanças que a ida de Sam para outra cidade irão causar na vida de todos, ”Logo você terá um novo grupo de amigos, não vai lembrar mais desse lugar” diz Charlie. As personagens cedem e têm uma conversa sobre o que realmente querem, a sua relação. Sam confronta Charlie sobre por que ele nunca tentou demonstrar o que realmente sentia, se “Aceitamos o amor que acreditamos merecer”, por que ele nunca tentou nada? Indo mais a fundo na conversa, Charlie e Sam continuam a declarar seus sentimentos, até que Charlie beija Sam. Durante o beijo, Sam passa a mão na perna de Charlie e isso o choca. A partir daí o filme nos mergulha, junto a Charlie, na dor e memória do abuso que ele havia sofrido, e na sua recuperação.


Charlie retorna para casa, caminha pelos cômodos refazendo alguns de seus passos e encarando o espaço entre presente e passado, passando pelas memórias de violências recentes e pregressas. Ele senta em frente a sua máquina de escrever, o lugar onde sempre pode se expressar, procurando clareza e não encontra. Então, ele liga para sua irmã e pergunta desesperadamente: “Fui eu que matei a Tia Helen, não foi?”. Ele volta a caminhar pela casa e pelas memórias, perdido. Encontramos com Charlie agora internado em um hospital, e acompanhamos o seu processo de lidar com suas feridas, admitir seu sofrimento, ressignificar suas memórias e compartilhar tudo com sua família e amigos. E ao final, ao encontrar com seus amigos novamente, terminamos em uma imagem refletida de uma cena icônica anterior, mas agora com Charlie na traseira da caminhonete, atravessando o túnel.


Toda a energia crua da adolescência, a irreverência vinda da impossibilidade da antecipação dos problemas da vida, os desafios do conflito de gerações, e a insegurança sobre o futuro incerto pareciam ser deixados de lado para dar espaço a um final que deveria ser catártico, aspirava ser simbólico, desejava ser bonito, mas para mim na época não foi nada além de apático. Como se o filme de repente se dissociasse de todos os elementos de um teen movie, da adolescência, e por consequência de mim.


Como a queda de Charlie acontecia depois de conseguir aquilo que ele queria? Como o filme tentou me convencer da recuperação de Charlie, uma arco inteiro de autoconhecimento, com apenas uma seleção de momentos do seu tratamento? Se esse era o tema do filme, o que realmente importava, o tempo do filme não deveria ser dedicado a isso?


Então o que mudou? Para começar, hoje vejo que a apatia era minha, não por falta de vontade, mas por ser um adolescente nessa primeira experiência e não entender sobre o que o filme realmente falava. Tudo que eu cobrava que o filme fosse, para que o seu final fizesse sentido, ele já é - e dois elementos em específico provam isso.


O primeiro são as memórias. As memórias em “As vantagens de ser Invisível”, muito como as memórias na vida real, são erráticas, nostálgicas, muitas vezes desconexas, emocionais e romantizadas. Desde as alterações da altura da câmera para complementar o ponto de vista de Charlie, que era mais novo em suas memórias, como os planos detalhes que irrompem na tela e nos atingem com sua força coerciva, até a montagem compulsiva, comparativa e seu paralelismo com elementos do trauma e sua internalização. Toda a sua ressignificação narrativa desses momentos no filme após sua catarse como construção e representação da memória no filme é excepcional.

Percebemos esse trabalho com a memória na escolha de quando aparecem, ou como aparecem, que técnicas são aplicadas e como representam esses momentos do passado que surgem da narrativa do filme. Tudo se completa em uma sinergia construída para nos fazer ver aquelas memórias como verdade, a senti-las como Charlie sentiu, e por isso empatizar com sua dor quando elas são ressignificadas, tanto na narrativa quanto para o personagem, tudo a partir desse terço final do filme. Ao contrário do que eu entendia, nós acompanhamos a dor e recuperação de Charlie desde o começo do filme, mas, como ele, vemos, lembramos e entendemos tudo a partir de sua perspectiva, no seu próprio tempo e processo de recuperação.


O segundo elemento é o Futuro. O Futuro é tema e elemento central do drama adolescente, e por consequência do gênero dos teen movies. Esses adolescentes estão presos entre a infância e a fase adulta, entre a completa incapacidade de tomar decisões sobre a própria vida e a total agência sobre ela, e a mais nova responsabilidade colocada sobre seus ombros é o seu próprio futuro. Muitos teen movies dissertam sobre esse tema de maneira otimista, colocando para nós que não só os jovens são responsáveis pelo próprio futuro mas pelo futuro de todos e que são eles a potência da mudança necessária, eles são a solução. Outros encaram essa encruzilhada de maneira bem pessimista, nos dizendo que o ápice da vida, da energia humana, da nossa liberdade é a adolescência, e nas palavras da personagem Diane Court em “Diga o que quiserem”: “ Eu olhei pro futuro, e tudo que posso dizer é voltem!”.

“As Vantagens de ser Invisível” nos traz uma percepção mais humana e realista do futuro. O filme reconhece o potencial desses jovens e de sua liberdade como mudança para eles mesmos e para a sociedade, e ao mesmo tempo enfatiza a dor e as dificuldades que as mudanças e decisões, nossas e dos outros, podem causar. É nesse equilíbrio construído nesse último terço do filme, no arco de Charlie e de sua recuperação, que o filme nos mostra que há sempre um futuro, um com novas dores, novas quedas, mas com a liberdade de construirmos o que acreditamos, de pertencermos, de nos descobrirmos, e de que sempre há tempo para entendermos o amor que realmente merecemos.


São esses dois elementos, que fui incapaz de interpretar em minha primeira experiência, que fazem de “As Vantagens de Ser Invisível” um teen movie maravilhoso e com lugar único no gênero. É pela reflexão sobre as memórias, de seu poder destrutivo e curativo, que o filme nos conta o que é pertencer para Charlie, e qual é o real valor da história que contemplamos. É na relação desses adolescentes com o futuro que entendemos sobre o que realmente o filme é, e como ele marca o gênero.


Os personagens de “A Vantagem de ser invisível” olham para o futuro e vêem um túnel, uma oportunidade de se sentir infinitos.


Ficha Técnica

Título: The Perks of Being a Wallflower (bra: As Vanstagens de Ser Invisível)

Estreia: 19/10/2012

Direção e Roteiro: Stephen Chbosky

Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Russel Smith

Elenco principal: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Nina Dobrev, Paul Rudd

Cinematografia: Andrew Dunn

Edição: Mary Jo Markey, Yana Gorskaya

Música: Michael Brook

Design de Produção: Inbal Weinberg

Figurino: David C. Robinson

Distribuidora: Summit Entertainment

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