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Alien, O Oitavo Passageiro - Muito mais do que um filme de terror no espaço

Rever Alien - O Oitavo Passageiro foi uma grata surpresa. Percebi que o filme tinha muito mais a me dizer do que havia me dito quando eu o assisti aos 10 ou aos 15 anos de idade.


O que pra mim sempre foi apenas um excelente "filme de terror no espaço", passou a ser bem mais do que isso, porque hoje tenho a perspectiva da paixão pelo cinema, que me permite vê-lo como um divisor de águas nos gêneros de horror e ficção científica e a perspectiva de mulher adulta, que me permite enxergá-lo também como uma crítica social.


Apenas para ambientar quem eventualmente não viu o filme (e já alerto para os spoilers adiante), ele trata da viagem de volta à Terra dos sete tripulantes da espaçonave The Nostromo.


A introdução desses personagens é vaga. Não sabemos quem são, suas funções, suas histórias. Somos atirados no meio de uma conversa banal entre todos eles. Ao contrário do que poderíamos esperar, não se parecem com renomados cientistas ou astronautas experientes. Entre uma reclamação sobre o salário aqui e uma piada sobre o café ali, o que podemos perceber é que a nave é habitada por pessoas comuns, que qualquer um de nós poderia estar ali.

O elemento desestabilizador dessa aparente normalidade é apresentado quando os tripulantes, pensando que em breve estariam de volta ao lar, são surpreendidos pelo desvio de curso da The Nostromo, vendo-se obrigados a investigar uma transmissão de origem desconhecida vinda de um planetoide. Alguns dos tripulantes são designados para explorar o local de onde a transmissão se origina. E a partir daí, se instala o caos.


O design da nave alienígena é possivelmente a coisa mais impressionante que já vimos no cinema em termos de Direção de Arte. Tudo na nave alien é orgânico, remetendo a ossos e entranhas e até mesmo a órgãos sexuais. A palavra que define a caracterização do habitat do alien é: visceral.

Tudo se contrapõe à nave “mãe”, como a The Nostromo é chamada por nossos personagens humanos, os quais vemos “nascer” no início do filme, ao acordarem nas câmaras de hibernação, dentro de um ambiente moderno e limpo em uma nave permeada de referências industriais e tecnológicas.

No contexto do filme, nós, os humanos, somos parte do que não é natural, somos a ameaça a ser eliminada - é com base nisso que Scott constrói a sensação de pavor. E antes mesmo que o adversário surja, a “mãe”, que deu à luz os personagens, fica “ferida”. Mais tarde descobrimos que toda a estrutura da nave pode ser corroída pela substância que circula nas veias do alienígena. A situação dos tripulantes é de total desamparo.


Se eu tivesse que resumir Alien em uma tagline que não precisasse ser tão excelente ou ter tanto impacto quando a tagline original do filme ("No espaço ninguém pode ouvir você gritar") eu o resumiria nesta: "Não há pior medo do que o medo do desconhecido".


Alien é sobre isso. O medo do desconhecido. E esse medo não se restringe à figura do alienígena. A prioridade estabelecida pela corporação que comanda a missão da The Nostromo, uma entidade sobre a qual nada sabemos, é capturar a forma de vida desconhecida para análise - a tripulação é descartável. A presença de um androide entre os tripulantes sinaliza que eles devem temer uns aos outros. Tudo e todos naquele ambiente são potenciais inimigos. Em seus primeiros quarenta minutos o filme estabelece que não há nada com que os tripulantes possam contar, a não ser uns com os outros. E, logo em seguida, nos diz que nem nisso eles podem confiar.


O suspense é extremamente bem construído por Scott. Vemos muito pouco do alien no filme que carrega seu nome. E nunca sabemos como ele estará, já que fica claro que a criatura que sai do corpo do Oficial Kane (John Hurt) está constantemente mudando de forma. Sabemos tanto quanto os personagens. Só vemos o alien quando eles veem (e eles quase nunca o veem). E tão logo ele sai de cena, não sabemos mais o que esperar.


Scott investe ainda em movimentos de câmera para longe do perigo, com a nítida intenção de deixar o espectador apreensivo. Em certo momento vemos Kane deitado em uma maca com o facehugger grudado em seu rosto. A câmera passeia se afastando por longos quarenta segundos até que uma nova ação aconteça, sem que o facehugger esteja no quadro. A cena se estende por quase quatro minutos, constantemente permeados pela sensação de que aquela criatura se desgrudou de seu hospedeiro e está prestes a atacar os personagens que conversam tranquilamente - é dessa forma que Scott mantém a tensão durante toda a película. Não há, desde o aparecimento do alien, um só minuto de tranquilidade. Mesmo antes disso, a atmosfera do filme é sempre de total apreensão.

Em muitos momentos o que não podemos ver, nós ouvimos (ou não ouvimos). Antes das poucas aparições do alien, podemos ouvi-lo se movimentando pela nave, imersa no mais absoluto silêncio - sua presença é sinalizada pelo barulho de seus passos ou pelos pequenos sons guturais que emite. Em outros momentos, uma outra coisa qualquer emite ruídos (uma goteira, os bips do localizador, a abertura das escotilhas ou um alarme) que ora se confundem, ora se misturam, e em alguns casos anulam a possibilidade de ouvirmos a criatura se movimentando. Sem uma visão clara e sem o silêncio necessário é impossível aos tripulantes (e ao espectador) saber se o perigo está próximo.


Mas o que mais me impressionou em Alien, revendo-o agora, foi a discussão sobre igualdade de gêneros que o filme traz.


É um filme de 1979. Só por isso, qualquer intenção de desconstruir conceitos preestabelecidos já é absurdamente relevante. Mas o que mais me chocou é que, ao contrário da imensa maioria dos filmes que buscam intencionalmente desconstruir estes conceitos, Alien não esfrega as desigualdades do mundo real na cara do público. Ao contrário, ele as ignora e concebe uma sociedade na qual as diferenças não existem.


Já de início a igualdade é estabelecida entre os homens e mulheres, que possuem funções semelhantes e salários equivalentes a suas funções, independentemente de gênero (como o diálogo inicial dos personagens deixa claro). Não existe no filme uma autoridade que se destaque impositivamente por sua masculinidade. Os figurinos não diferenciam homens e mulheres. Todos os tripulantes são tratados pelos sobrenomes, fazendo desaparecer a diferença entre feminino e masculino.


O comando de Ripley para que a quarentena fosse obedecida, que é ignorado e dá origem a todo o caos, poderia, no contexto que o filme estabelece, ter partido de qualquer um dos tripulantes, homem ou mulher. O próprio protagonismo de Ripley não é imediato. Ela se estabelece aos poucos como líder, e, finalmente, como única sobrevivente - no universo criado em Alien a igualdade de gêneros é tão real que nada disso soa absurdo, nem mesmo em 1979.


Mas, considerando essa igualdade que o filme estabelece, é impossível não notar um tom de crítica (eu diria até mesmo de ameaça ou vingança) ao sistema patriarcal. Toda a caracterização do alien remete fortemente a um símbolo fálico. Quem "dá à luz" a primeira forma alienígena depois do facehugger é um homem. O alien mata todos os personagens homens do filme, de maneira invasiva. E, ao final, a única sobrevivente, e responsável pela morte do alienígena, é uma mulher.

A personagem de Sigourney Weaver não só é uma personagem feminina extremamente forte e independente, mas é, acima de tudo, humana. O filme não banaliza a figura da mulher mas ao mesmo tempo passa longe de retratá-la como uma super heroína imbatível. Não há objetificação e não há estereótipos. Ripley sofre, sente medo, hesita, mas, ao final, enfrenta o perigo com as armas que tem à mão e elimina a ameaça, sem deixar de salvar o gato. Ela age como qualquer uma de nós, mulheres, poderia agir, enfrentando as mesmas dificuldades emocionais que nós enfrentaríamos. Ainda que tenha sido concebida e dirigida por homens, é impossível não notar a tentativa, bem sucedida, de distanciar Ripley do papel da donzela indefesa que muitas vezes só existe no filme para que possa ser salva por um homem que nutre interesses românticos por ela (em Alien, inclusive, há zero romantismo).


Alien é um clássico que sobreviveu ao passar dos anos e criou escola no gênero da ficção científica. Não é só um filme de terror no espaço. É o filme de terror no espaço.



Ficha Técnica

Título: Alien (bra: Alien, o Oitavo Passageiro)

Estreia: 25 de maio de 1979

Direção: Ridley Scott

Roteiro: Dan O'Bannon

Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill

Elenco principal: Tom Skerritt, Sigourney Weaver, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, John Hurt, Ian Holm e Yaphet Kotto

Direção de Fotografia: Derek Vanlint

Montagem: Terry Rawlings e Peter Weatherley

Música: Jerry Goldsmith

Design de Produção: Michael Seymour

Direção de Arte: Roger Christian, Leslie Dilley

Figurino: John Mollo

Conceito: H.R. Giger, Jean 'Moebius' Giraud, Ron Cobb e Chris Foss

Supervisor de Efeitos Visuais: Nick Allder

Distribuidora: 20th Century Fox

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Precisamente. Vi 'Alien - O Oitavo Passageiro' por ocasião de sua estreia no 'Cine São Luiz' de Fortaleza, Ceará, em agosto ou setembro de 1979. No 'Cine Diogo', localizado em rua paralela, logo atrás do ' São Luiz', estava sendo exibido '007 Contra o Foguete da Morte' (tenho asco desse título em português do Brasil) / 'Moonraker' (1979). O conceito do xenomorfo apresentado por Ridley Scott foi uma imensa surpresa que aterrorizou a todos nas salas dos cineteatro da época. No ano seguinte, 1980, 'Alien' foi agraciado com o prêmio Oscar categoria melhor montagem (concorreu com outra produção scifi classe A: 'Star Trek - The Motion Picture' de Robert Wise). Naquela época o termo efeitos especiais havia sido trocado par…

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